Home > Eu sou #MãePraSempre > Eu sou #MaePraSempre / Por Flávia Pizelli
Flavia

“Mãe, essa é sem sombra de dúvida a minha principal e mais prazerosa função neste mundo.

A maternidade é minha prioridade há nove anos, não existe nada mais importante pra mim que a criação de meus filhos e levo a sério minha intenção de fazer dos três pessoas plenas, sem muitos traumas, sem muitos melindres, cidadãos merecedores da Terra.

Todo mundo sabe ou imagina que criar filhos nem sempre é uma tarefa simples e eu meu marido fomos premiados. Recebemos três grandes amores, três crianças encantadoramente inteligentes, companheiras, carinhosas, engraçadas e alérgicas! Alérgicas alimentares! E essa é a nossa cota de diferença.

Como eles dizem, somos do grupo dos especiais, mas a nossa especialidade é invisível. A maioria das pessoas não faz ideia dos perigos que podem envolver a Alergia Alimentar, nem dos traumas que ela pode provocar, das mudanças de rotina, das trocas de atitude que ela impõe.

Desde que descobrimos que tínhamos essa condição, nos mantivemos firmes no propósito de fazermos disso não uma tragédia, um peso, e sim uma oportunidade de crescimento. Queremos que sejam crianças, felizes, alegres e leves e temos dado nosso jeito. Embora já tenham enfrentado discriminação, bullyng, anafilaxia e descaso, são felizes com a vida que tem e valorizam a parte boa.

Levamos marmita para todos os cantos. Eles não comem nada de restaurantes e etc. Nem de qualquer casa podem comer. A alergia impõe cuidados que a maioria das casas não tem, por que não precisa. Saímos por aí vez ou outra – e o por aí já foi até uma viagem internacional – com muitas marmitas congeladas e muitas conversas nas alfândegas para que entendessem o que nós carregávamos com todo cuidado. Mas isso não nos pesa os ombros. É apenas uma diferença!

São três realidades diferentes nas comidas e uma luta só pela conscientização e inclusão social. Este ano temos algumas conquistas. Entre as conquistas prosaicas está o simples e popular arroz, que há muito não andava pelos pratinhos infantis da minha casa.

Já as conquistas sociais estão me alegrando e surpreendendo ainda mais. Temos pais de amiguinhos preocupados em fazer sacolinhas com guloseimas permitidas em festas de aniversários (na verdade isso começou a acontecer de maneira mais frequente ano passado) e tivemos uma Semana de Conscientização da Alergia Alimentar em Campos.

Temos também professores preocupados com inclusão em uma escola que nos acolhe. Depois de algum tempo de boa vontade, começaram a imprimir ações reais de inclusão. Fizeram uma passeata colocando alunos nas ruas e na festa caipira nos convidaram para montar uma barraquinha de guloseimas que fossem permitidas a clientela alérgica! De quebra incluímos diabéticos e celíacos também.

Algumas pessoas comentam surpreendidas o fato d’eu ter feito da divulgação da alergia alimentar minha principal bandeira de vida. Na verdade, tudo isso faz parte do meu plano de fazer de meus bebezinhos, adultos saudáveis e de prestar algum serviço a comunidade em que estou inserida. Já que sou jornalista posso aproveitar meu treinamento para a divulgação e tornar a Alergia Alimentar um pouquinho que seja mais conhecida de alguém. Ainda é muito escassa a informação.

O meu bebê mais velho já fez nove anos, o segundo fez sete e o terceiro ainda vai fazer dois, mas ao que parece têm crescido saudáveis, apesar da alergia e do que ela pode representar.

Estou prestes a completar 41 anos. Até ter filhos a vida não tinha me apresentado grandes desafios. Tive uma infância tranquila, com pais amorosos e atentos, com uma irmã praticamente gêmea, que foi minha companheira pra tudo. Tive avós, padrinhos, tios e muitos, muitos primos.

Fui muito feliz nas escolas onde estudei, entrei na faculdade sem dificuldades, comecei a trabalhar da mesma forma, como se tudo tivesse que correr para algum lugar certo.

Tenho a profissão que escolhi, casei aos 31 anos com um menino que conhecia desde os 15 e por quem surpreendentemente me apaixonei avassaladoramente. Casamos. Confesso que a vida era tão tranquila, com desafios tão comuns, que as vezes pensava que alguma coisa devia estar me esperando em uma esquina da vida. Mas como nunca fui muito medrosa fui seguindo firme e forte!

Primeira gestação tranquila, um parto natural mal sucedido que terminou numa cesárea de emergência, mas tudo parecia que seria igual a maioria. Até nosso bebezão começar a ter sintomas de alergia e o pediatra nem desconfiar que pudesse ser esta a questão. Foram muitos os problemas respiratórios e de pele. Uma demissão na primeira pneumonia e um novo emprego, que o senso comum julgava melhor que o que me demitiu.

Tivemos o segundo filho, quando o mais velho fazia dois anos e ele já tinha um diagnóstico furado de alergia a leite, quando o problema era muito maior, com alergia a muitos alimentos que nem imaginávamos.

Com o segundo, uma nova sucessão de má orientação pediátrica. Nos disseram para que eu não ingerisse leite de vaca dos sete meses de gestação para a frente, incluindo a amamentação e que poderíamos usar soja, o que depois descobrimos ser totalmente contra-indicado. O bebezinho não tinha paz. Dava arrotos que pareciam de um monstro e tinha assaduras terríveis, além de cólicas inimagináveis.

Com pouquíssimo tempo de vida começaram as infecções e veio a primeira otite que perfurou um dos seus tímpanos. Nessa época tínhamos dois bebês que não dormiam, e ficavam muito doentes. Eram caixas e mais caixas de antibiótico e idas muito, muito frequentes ao pronto-socorro, além das consultas rotineiras ao pediatra.

Até que quando o mais velho completava dois anos e meio e o menor seis meses, uma pediatra da emergência matou a charada e nos encaminhou ao especialista que há sete anos os acompanha no Rio.

Começou nosso período de aprendizado, medo e paz. Por um lado, tivemos mais qualidade de vida, mas descobrimos que nosso menino mais velho poderia sofrer um choque anafilático a qualquer momento e tivemos que lidar com esta espada sobre nossas cabeças. Compramos uma caneta de adrenalina, iniciamos uma dieta restrita com ele e começamos a tentar dar alimentos ao menorzinho.

Os dois passaram a tomar um leite caríssimo e ao mesmo tempo tivemos uma nova otite que fez um dos tímpanos do menor ser perfurado novamente. Com isso a saída da creche era uma imposição, ele não poderia mais ficar no ambiente escolar, pois tinha a imunidade muito baixa.

Com mais uma infecção séria tomei a difícil decisão de deixar a produção de jornalismo na TV onde trabalhava. Meu marido me apoiou, mas nossas contas de médicos e tudo o mais que os envolvia começaram a ficar muito caras e ele passou a trabalhar muito mais, perdendo muitas das horas que se dedicava as crianças.

Mas tive a sorte de contar com sua generosidade e seu amor que me permitiram e permitem novamente hoje exercer a maternidade de maneira plena.

Com esses atropelos, nosso plano de ter três filhos foi interrompido. Até que em 2014 recebemos sem planejar nossa menininha encantada. Veio sem planejamento, cercada de cuidados para que a alergia não a atingisse também, mas envolvida por muito amor. A chegada dela e sua condição alérgica, apesar de todos os cuidados, me impôs um novo pedido de demissão.

Uma nova parada que terá fim algum dia e vai da mesma maneira me impor um novo recomeço. Mas penso que isso tudo é só enquanto eles crescem. Daqui a pouco estarão grandes e se a alergia os acompanhar terão sido bem treinados para conviver com ela.

Os sonhos de universidade já começaram por aqui, mas meus planos de um breve retorno devem virar realidade muito antes disso.

Enquanto isso, sinto muita falta da minha profissão, mas não de trabalho, pois nunca trabalhei tanto em minha vida e nunca tive uma clientela tão exigente, nem tão amorosa.

Enquanto isso, agradeço poder estar com eles, pois não sei como seria ter que dar conta deles e das minhas pautas, matérias, fotos, artigos, coletivas.”

Flávia Ribeiro Nunes Pizelli, jornalista, mãe de Pedro desde 2007, de Joaquim desde 2009 e de Maria desde 2014.

Foto: Claricia Martins

12 Comments, RSS

  • Ana lila

    says on:
    28 de julho de 2016 at 18:14

    Linda matéria !!! Flavia é realmente uma guerreira !!!

  • Juliana Barreto

    says on:
    28 de julho de 2016 at 18:58

    Sempre emocionando‼️ Sou sua fã ❗️

  • Roberta Gomes Arantes

    says on:
    28 de julho de 2016 at 19:13

    Lindas palavras e linda foto!

  • Kamilla

    says on:
    28 de julho de 2016 at 20:18

    Emocionada!Parabéns Flávia e tudo que há de melhor pra vcs!

  • Cristiane Dias

    says on:
    28 de julho de 2016 at 22:29

    Parabéns, Flavia!!
    Eu conheci você quando ainda era uma criança. Lembro do seu sorriso e lembro também que a chamavam “Flavinha”. E a Flavinha transformou-se numa grande mulher. Conheci a sua infância e, agora, lendo essa matéria linda, percebo que o seu crescimento até a maturidade se deu de forma privilegiada. Que Deus te abençoe e continue Maior que tudo. Parabéns à família da sua infância e parabéns pela família que você construiu ao lado do seu esposo. Beijos.

  • Eliana Nunes

    says on:
    29 de julho de 2016 at 01:26

    Que texto perfeito…
    Parabéns pela profissão e pelo maravilhoso dom e desempenho de ser mãe…
    Amamos vcs

  • Mariangela Ribeiro Gomes Viana

    says on:
    29 de julho de 2016 at 11:37

    Sempre te adimirei pela sua guarda Bima!!! Depois dessa luta com essas crianças lindas e encantadoras, vc prova a que veio!!! Sei que é difícil mas vc conseguiu transformar uma dificuldade num aprendizado com muito mérito. Suas crianças são alegres e felizes. Se adaptam facilmente em qualquer lugar respeitando suas limitações sem que isso as façam se sentir diferentes das outras crianças. Parabéns prima querida pela mãezona que é (nunca tive dúvidas disso), pela matéria esbanjando carinho a todo tempo e por poder ajudar a outras pessoas que passam pela mesma dificuldade. Uma parceria que deu certo!! Vc é Tiel !!! Parabéns aos dois pela dedicação a família.

  • Mariangela Ribeiro Gomes Viana

    says on:
    29 de julho de 2016 at 18:57

    Foto linda Bima!! Merece um poster!!!

  • Rose

    says on:
    29 de julho de 2016 at 20:27

    Flavia, LINDO!!!
    Que Deus continue a ilumina-la e fortalecendo-a na sua luta diária de educar suas joias e esclarecer os diamentes sociais ainda nao lapidados para esta área tão crescente: alergia alimentar!

  • Michelle

    says on:
    30 de julho de 2016 at 02:20

    Parabéns amiga querida!!! Muito orgulho de você. Foto e artigo lindos!!!

  • Flávia

    says on:
    31 de julho de 2016 at 02:58

    Pessoal,

    Obrigada a todas as amigas e primas tão queridas por palavras tao carinhosas. Li todos comentários agora! Cristiane, lembro muito de vocês e Pedro é amigo de Murilo, neto de Denise! Dagma, obrigada pelo espaço para exercitar meu texto!

    • Dagma Pontes

      says on:
      31 de julho de 2016 at 22:09

      Muito obrigada vc, Flávia, Por dividir seu texto e seu amor com a gente! Bjs

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